Domingo, 02 de Agosto

Com mais de 30 anos de experiência, oftalmologista revela os principais cuidados para preservar a visão

Publicado em 02/08/2026 às 09:30

Dr. Francisco Eduardo Lopes de Lima é médico oftalmologista, com atuação dedicada há mais de 30 anos às áreas de glaucoma e cirurgia de catarata. Graduado em Medicina pela Universidade Federal de Goiás (UFG), realizou especialização (Fellowship) em Glaucoma, Catarata e Córnea na Harvard Medical School/Massachusetts Eye and Ear Infirmary (EUA), foi Visiting Scientist no Massachusetts Institute of Technology (MIT) e concluiu o Doutorado em Oftalmologia pela Universidade de São Paulo (USP).

É pesquisador da Universidade Federal de Goiás (CEROF-UFG), editor do Portal da Oftalmologia, ex-presidente da Sociedade Centro-Oeste de Oftalmologia, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Glaucoma e autor de livros e diversos trabalhos científicos publicados em periódicos nacionais e internacionais. Sua atuação clínica é voltada ao diagnóstico precoce, ao tratamento do glaucoma e da catarata e ao desenvolvimento de técnicas cirúrgicas que contribuam para preservar a visão e a qualidade de vida dos pacientes.

 O glaucoma é frequentemente chamado de “cegueira silenciosa”. Como explicar para o grande público a gravidade de uma doença que avança sem dar nenhum sinal ou sintoma inicial?

O glaucoma é a principal causa de cegueira irreversível no mundo justamente porque, na maioria das vezes, não provoca dor nem alteração visual nas fases iniciais. Enquanto a doença progride, o paciente continua enxergando aparentemente bem, pois o cérebro compensa a perda da visão periférica.

Quando os sintomas finalmente aparecem, geralmente uma parcela importante do nervo óptico já foi comprometida. E o que foi perdido não pode ser recuperado.

Por isso dizemos que o glaucoma é “ladrão silencioso da visão”: ele pode evoluir durante anos sem chamar a atenção. A boa notícia é que, quando diagnosticado precocemente, na grande maioria dos casos conseguimos controlar a doença e preservar a visão ao longo da vida.

Diante dessa ausência de sintomas, qual é o papel real do exame de rotina? A partir de qual idade as pessoas devem acender o sinal de alerta e com que frequência devem visitar o oftalmologista?

O exame de rotina é a melhor forma de vencer o glaucoma antes que ele provoque danos.

Muitas pessoas acreditam que enxergar bem significa ter olhos saudáveis, mas isso não é verdade. O glaucoma pode estar presente mesmo em pessoas que leem, dirigem e trabalham normalmente.

De modo geral, recomenda-se uma avaliação oftalmológica periódica a partir dos 40 anos. Quem possui fatores de risco — como histórico familiar, pressão intraocular elevada, diabetes, alta miopia ou uso prolongado de corticoides — deve iniciar esse acompanhamento mais cedo e conforme orientação do oftalmologista.

O intervalo entre as consultas depende do perfil de cada paciente, mas o mais importante é compreender que a prevenção continua sendo o melhor tratamento.

O senhor lida diariamente com uma especialidade médica muito delicada, onde o diagnóstico tardio pode trazer notícias difíceis aos pacientes. Como o senhor desenvolveu esse seu perfil tão caloroso e acolhedor para amparar quem recebe esse diagnóstico?

Acredito que isso nasce da compreensão de que não estamos tratando apenas olhos, mas pessoas.

Receber o diagnóstico de uma doença crônica desperta medo, insegurança e muitas dúvidas. Antes de falar sobre exames, medicamentos ou cirurgia, procuro ouvir o paciente e entender suas preocupações.

Quando ele compreende o que está acontecendo e percebe que existe um plano de tratamento, a ansiedade diminui e surge confiança.

Ao longo da carreira aprendi que conhecimento técnico é indispensável, mas empatia também faz parte da medicina. Muitas vezes, uma conversa tranquila produz tanto impacto quanto um bom procedimento.

 A medicina evoluiu muito nos últimos anos. Quais são as principais armas e tecnologias que o senhor dispõe hoje — seja em colírios, lasers ou cirurgias — para estagnar o avanço do glaucoma e devolver a tranquilidade ao paciente?

Vivemos um dos períodos de maior evolução da história do tratamento do glaucoma.

Hoje dispomos de colírios mais modernos, exames capazes de detectar alterações cada vez mais precoces, lasers muito mais seguros e procedimentos cirúrgicos bastante sofisticados.

Também passamos a individualizar muito mais o tratamento. Nem todo paciente precisa da mesma estratégia.

Em muitos casos conseguimos controlar a doença apenas com colírios. Em outros, o laser pode reduzir ou até eliminar temporariamente a necessidade de medicamentos. Quando a cirurgia é indicada, existem diversas técnicas que permitem escolher a abordagem mais adequada para cada situação.

Nosso objetivo permanece o mesmo: preservar o nervo óptico e permitir que o paciente mantenha sua independência visual durante toda a vida.

 Como a subespecialidade em catarata se cruza com o tratamento do glaucoma? É possível devolver a qualidade de visão e, ao mesmo tempo, controlar a pressão intraocular do paciente em um único procedimento?

Sim. Hoje, em muitos pacientes, é possível tratar as duas doenças na mesma cirurgia.

Enquanto removemos a catarata para recuperar a qualidade visual, podemos associar procedimentos destinados ao controle da pressão intraocular.

Essa abordagem reduz a necessidade de novas cirurgias, acelera a recuperação e proporciona um tratamento mais completo.

Cada caso deve ser cuidadosamente planejado, mas essa integração entre catarata e glaucoma representa um dos grandes avanços da oftalmologia moderna.

Hoje, uma das maiores revoluções no tratamento é a cirurgia minimamente invasiva com o uso de micro-stents modernos. Como essa técnica consegue oferecer mais conforto ao paciente glaucomatoso e prolongar a visão e a qualidade de vida?

Os procedimentos minimamente invasivos representam uma evolução muito importante no tratamento do glaucoma leve e moderado.

Os micro-stents aumentam o escoamento natural do humor aquoso, ajudando a reduzir a pressão intraocular com menor agressão aos tecidos e recuperação mais rápida quando comparados às cirurgias tradicionais.

Em muitos pacientes, eles também permitem diminuir a quantidade de colírios utilizados diariamente, o que melhora bastante a qualidade de vida.

É importante destacar que essas técnicas possuem indicações específicas. Elas não substituem todas as cirurgias convencionais, mas ampliaram significativamente as opções de tratamento e possibilitam abordagens cada vez mais personalizadas.

Muitos pacientes relatam que o senhor parece ter sido “feito sob medida” para atuar nessa área tão desafiadora. O senhor enxerga sua profissão como uma escolha de carreira ou como uma missão de vida?

Vejo a medicina como uma vocação que, com o tempo, tornou-se uma missão.

Ao longo da carreira tive a oportunidade de acompanhar pessoas que chegaram ao consultório com medo de perder a visão e, anos depois, continuam levando uma vida ativa graças ao tratamento adequado.

Poucas coisas são tão gratificantes quanto ajudar alguém a preservar sua autonomia, sua independência e sua capacidade de enxergar aqueles que ama.

Esse privilégio renova diariamente minha motivação para estudar, pesquisar e buscar sempre as melhores alternativas para cada paciente.

Para encerrar, se o senhor pudesse deixar um único conselho no coração de cada leitor deste jornal que hoje negligencia a saúde dos olhos, qual seria essa mensagem?

Não espere a visão piorar para procurar um oftalmologista.

Muitas das doenças que ameaçam a visão, como o glaucoma, evoluem silenciosamente. Quando percebemos os sintomas, às vezes já é tarde para recuperar o que foi perdido.

Cuidar da visão é um investimento na própria independência e qualidade de vida.

Um exame realizado hoje pode preservar a capacidade de ler, dirigir, reconhecer o rosto de quem você ama e continuar vivendo plenamente por muitos anos. Essa é uma decisão simples que pode fazer toda a diferença no futuro.

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